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Chafarizes: salvação para que não tem água em casa
Postado em 17/12/2007 às 11:13:28
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Os chafarizes são a única solução para cerca de 5.600 moradores de Lisboa que vivem sem água canalizada. Uma realidade bem conhecida de Maria Lucinete, que já perdeu a conta aos jarros com água que carregou na última década.
Com 64 anos e depois de sobreviver a dois acidentes vasculares cerebrais, Maria Lucinete desce com «muito custo» a rua principal do Bairro da Liberdade, em Campolide, para ir buscar água ao chafariz, encostado ao Aqueduto das Águas Livres.
Com 62 anos, acarreta garrafões de água
Mas a tarefa mais difícil é subir aquela rua muito íngreme com dois garrafões cheios de água. Chegando ao portão da vila operária onde reside, surge outro obstáculo: Uma escada ainda mais íngreme, onde mal cabe uma pessoa e sem corrimão onde se possa amparar.
Os garrafões ficam à porta, numa varanda exígua, assim como os alguidares cheios de água. Envergonhada, Maria Lucinete mostrou à Lusa a casa: uma assoalhada mínima que faz de quarto e cozinha, apenas com uma cama e um fogão e muitos objectos à mistura.
Lá fora, na varanda, tem uma sanita que não pode utilizar porque a água vem toda para fora. «Tenho de fazer as necessidades num balde e depois deitar ao lixo», contou a moradora, que toma banho em casa, dentro de um alguidar: «Fico mais à vontade do que se fosse ao balneário público».
Instalar água canalizada em casa está fora das possibilidades financeiras de Lucinete, que mal tem para pagar a renda de casa, cerca de 62 euros. «É muito dinheiro», exclamou a moradora, que para sobreviver faz recados aos vizinhos a troco de «um a dois euros».
Paga a um vizinho para lhe ia buscar água
Noutra rua do mesmo bairro mora José Manuel Paulos, que se desloca apoiado em duas muletas devido a uma deficiência nas pernas. Por essa razão tem de pagar a um vizinho para lhe ir buscar água ao chafariz.
«Moro aqui há 53 anos e nunca tive água», contou à Lusa o morador, que ironicamente tem casa de banho, onde «apenas» faltam torneiras. Em vez disso tem cântaros cheios de água espalhados pelo espaço.
José Paulos contou que a senhoria construiu a casa de banho com a intenção de instalar as canalizações, mas acabou por nunca o fazer. Entretanto morreu e a casa passou para vários herdeiros, o que complicou a situação do inquilino, caso pretendesse uma autorização para o fazer.
De qualquer forma, as dificuldades financeiras não o permitiriam. «Se eu pudesse instalava a água, mas há custos grandes», lamentou o morador, que vive sozinho numa pequena moradia, com um corredor fundo, mas apenas uma assoalhada, onde o frio se faz sentir.
A falta de água canalizada tem condicionado a vida de Paulos, já dificultada pela sua deficiência física. «Limita-me muito para tomar banho [o que faz no centro social do bairro] fazer comida, tudo», sublinhou.
Os lamentos de José Manuel Paulos são idênticos aos de Albina Rosa Neves, que mora há mais de 50 anos no bairro e também nunca teve água canalizada.
«Só peço para não tirarem o chafariz», sublinhou Albina Neves, cuja vida se complicou com o internamento do marido, que diariamente se deslocava ao fontanário para ir buscar água.
800 mil pessoas ainda vivem sem água canalizada
De acordo com o Censos 2001, existiam 10.911 pessoas que não tinham água canalizada, enquanto 12.767 não tinham retrete no alojamento e 62.828 tinham-na fora de casa.
Segundo os dados do INE de 2005, 92 por cento da população portuguesa é servida por abastecimento de água, o que indica que 800 mil pessoas ainda vivem sem água canalizada.
FONTE: http://www.portugaldiario.iol.pt
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